Justificativa para implantação da disciplina de Educação Ambiental e Cidadã nas escolas públicas e privadas do município de Belo Horizonte, da 1ª série do 1° ciclo à 3ª série do 2° ciclo
É preciso implementar nas escolas municipais públicas e privadas de Belo Horizonte, da 1ª série do 1º Ciclo à 3ª série do 2º Ciclo, a disciplina “Educação Ambiental e Cidadã”, para que os problemas ambientais que também decorrem da falta de educação ambiental e cidadã da população não comprometam a possibilidade de existência das futuras gerações e do meio ambiente no qual elas estão inseridas. Quanto antes essa disciplina for inserida nas escolas da municipalidade, mais rápido os resultados positivos decorrentes dessa iniciativa surgirão.
A atual problemática ambiental emerge do entendimento das consequências das alterações no meio ambiente, como o aquecimento global, em curso, como sendo fruto da ação humana, em um dado contexto histórico. Tal percepção sugere uma mudança de mentalidade e, consequentemente, a adoção de novos paradigmas.
No entanto, para que essas mudanças necessárias à continuidade da vida no planeta se concretizem, é preciso que cada vez mais pessoas sejam conscientizadas, para que se sintam cada vez mais comprometidas e responsáveis pelo cuidado com a cidade, com a natureza, com o planeta. Essa busca toda só pode passar pela formação de mentes comprometidas e de cidadãos conscientes, com direitos e, sobretudo, deveres. A Educação Ambiental e Cidadã é ainda a principal ferramenta.
Isso é necessário porque ainda não existe entre as pessoas, de uma maneira geral, de todas as classes e categorias socioeconômicas, uma cultura de respeito ao meio ambiente, de uso consciente da água, de encaminhamento de resíduos gerados no cotidiano para a reciclagem e de conservação do espaço público, que não é “terra de ninguém”, mas de responsabilidade de todos os cidadãos, que devem zelar pelo patrimônio público e pelo meio ambiente.

Enquanto a necessidade de implantação da disciplina Educação Ambiental e Cidadã não for levada a sério em Belo Horizonte, a falta de cidadania e de civilidade da população, inclusive de pais e flhos da classe média e média alta da cidade, que conseguem arcar com mensalidades escolares da ordem dos R$ 600, continuarão a fazer com que o pote de Yakult tenha como destino o canteiro da jovem árvore e com que o espaço público seja negligenciado
Diante das circunstâncias, fica claro que a intervenção governamental não é suficiente para coibir a degradação ambiental e a falta de zelo para com o espaço urbano, principalmente no que diz respeito à fiscalização e eventualmente à punição de indivíduos que incorram em transgressões. Nesse sentido, a escola pode e deve contribuir para a formação de cidadãos mais aptos a respeitar o meio ambiente e a vida em comunidade, para que a ação governamental seja menos punitiva e mais preventiva.
Sendo assim, é preciso aliar mecanismos de criação e fomento a uma cultura de respeito ambiental e cívico aos já existentes mecanismos legais que estabelecem condutas, fiscalizam e punem cidadãos que incorram em comportamentos deletérios à vida em sociedade e no planeta.
Educação Ambiental e Cidadã na escola para difundir noção de que somos todos responsáveis pelo meio ambiente e pela cidade na qual vivemos
De acordo com as pesquisadoras Rosane Camargo, pós-graduada do Curso de Especialização em Gestão Escolar pela Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste), e Rosângela Abreu do Prado Wolf, professora e mestre em Lingüística Aplicada lotada no Departamento de Pedagogia da Unicentro/campus Guarapuava, autoras do artigo “Educação Ambiental e Cidadania no Currículo Escolar”,
quando se trata de problemas ambientais, exige-se por si só mudança de hábito com atitudes que surtam efeito. Uma das saídas é investir na base, ou seja, trabalhar com as crianças, pois através delas sensibilizaremos os adultos que as rodeiam e estaremos formando cidadãos com consciência ambiental e atitudes corretas. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. ?).
E sendo assim, como explicam Camargo e Wolf, a educação escolar
não pode cometer a estupidez de limitar os alunos em salas de aula, fazendo com que eles “engulam” ecologia como um conjunto de conhecimentos científicos e informações sobre ciclos biogeoquímicos, sistemas de fauna e de flora, cadeias alimentares e classificações de tipos de ecossistema, e ainda avaliá-los de forma tradicional – pergunta/resposta. É óbvio que o conhecimento desses fenômenos é indispensável para a compreensão da vida no planeta Terra e ajuda a defender o meio ambiente, porém, só isso não basta. A Educação Ambiental trata a educação integrada à cidadania, ao dia a dia, à formação da consciência ecológica, saindo da sala de aula de forma transdisciplinar e desenvolvendo atitudes ambientalmente corretas. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 2).
As autoras explicam no referido artigo que “no Brasil, a visão sobre a evolução da consciência ambiental começou no ano de 1990 (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 3)”, e que em 1991 o Ministério da Educação (MEC), por meio da Portaria 678/91, da Constituição Federal (1989, p. 124), enfatizou a
necessidade de que os sistemas de ensino contemplassem a Educação Ambiental. Atendendo à imposição da Carta Magna, os órgãos responsáveis – Conselho Federal de Educação e Conselhos Estaduais – elaboraram pareceres, visando a adequar a lei às características do sistema de ensino. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 3).
De acordo com as autoras, o Conselho Federal de Educação, órgão que normatiza e fiscaliza a educação nacional, foi chamado a emitir parecer sobre a inclusão da Educação Ambiental nos currículos escolares.
Citando o conselheiro Niskier (1998), as autoras afirmam que “[...] o caminho para a formação ou o reforço dessa consciência ecológica passa obrigatoriamente pela escola de 1º e 2º graus, no desenvolvimento da educação formal (CAMARGO e WOLF apud Niskier, Revista Eletrônica Lato Sensu, p.5)”.
A recomendação desse Conselho, sob a justificativa de que “a atual grade curricular já é bastante extensa (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 4)”, foi a de que a Educação Ambiental não se constitua como uma disciplina específica, mas que seja trabalhada de forma interdisciplinar. As autoras concordam com essa recomendação, deixando esse posicionamento claro no referido artigo.
É preciso instituir a Educação Ambiental e Cidadã como uma disciplina específica, devido à falta de condições instiucionais de difundi-la de forma interdisciplinar
No entanto, os próprios professores não foram formados dentro dessa cultura de respeito ao meio ambiente e à vida em comunidade nas cidades. Reconhecer isso implica reconhecer que o intuito de trabalhar a Educação Ambiental e Cidadã de forma interdisciplinar encontrará uma série de empecilhos pelo caminho, o que poderá comprometer o objetivo de formar cidadãos mais conscientes e mais aptos a contribuir para a melhoria das condições ambientais, “[...] a esperança na mudança de hábitos da sociedade (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 17)”.

Se ficar só no discurso, a necessária Educação Ambiental e Cidadã não será capaz de transformar positivamente a realidade. Contudo...
Não é preciso ir muito longe para se perceber que não há condições institucionais de que essa Educação Ambiental e Cidadã seja promovida de forma interdisciplinar. Basta observar a realidade de muitos professores, que não têm acesso a cursos de especialização e “reciclagem de conhecimentos”, que recebem remunerações pífias (em Minas Gerais, os professores da rede pública estadual não recebem sequer o piso nacional) e que não são incentivados a contento em sua prática docente.
Como as próprias autoras reconhecem, citando Marcos Reigota, autor do livro “O que é educação ambiental (Editora Terra Livre, 1988)”,
de acordo com o que o pesquisador aponta, uma grande dificuldade que encontramos é a interação entre os professores para desenvolver um trabalho interdisciplinar. O pouco conhecimento dos profissionais e, portanto, a falta de consciência ambiental deixa truncada essa questão. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 10).
Tal dificuldade foi constatada inclusive em uma pesquisa de campo feita pelas próprias pesquisadoras. Com o objetivo de verificar como vinha sendo feito esse trabalho de Educação Ambiental e Cidadã na cidade de Guarapauava (PR), as autoras empreenderam uma pesquisa investigativa sobre esse trabalho, por meio de questionários realizados com professores, alunos e pedagogas em três escolas públicas localizadas em bairros periféricos desse município (clientela oriunda de famílias de baixo grau de escolaridade). Ainda que essas escolas tenham suas particularidades, sabe-se que a realidade das escolas públicas brasileiras, principalmente aquelas voltadas a uma clientela de baixa renda, é muito parecida.
Quando questionados sobre “o que vem a ser educação ambiental”, em uma das escolas pesquisadas (a de n° 3), “alguns professores responderam de maneira convincente, outros, entretanto, assim como em outras escolas pesquisadas, demonstraram falta de profundidade para com a questão ambiental, bem como falta de comprometimento na luta pela preservação ambiental (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 17)”.
Em uma outra escola (a de nº 2), para essa mesma pergunta, o diagnóstico das autoras foi o seguinte:
Com essa resposta, pode-se perceber que o conceito de educação ambiental está um tanto vago, ou seja, pelo visto ainda não sentiram a gravidade do problema e consequentemente não se tem investido em conscientização de maneira mais coerente. Observa-se também que as práticas utilizadas são bastante simples, sem interação direta com o meio ambiente para incorporar o aprendizado. Para problemas dessa natureza deve haver interação e atividades mais dinâmicas, pois, como se sabe, tudo que é vivenciado torna-se mais facilmente assimilado. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 16).
Ainda em relação à escola de nº 2, as autoras assinalam que a partir das respostas relativas ao questionamento sobre “[...] o trabalho com um projeto que aborda a questão ambiental nessa escola (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 17)”,
outra vez, pôde-se observar uma falta de comprometimento com as questões ambientais, principalmente tendo em vista a gravidade que tem se apresentado nos últimos anos. Alguns elaboram projeto e tentam aplicá-los, mas não se percebe um empenho que convença os alunos a efetuar uma mudança de postura. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 17).
Quer dizer, como bem frisam as próprias autoras,
o processo de educação ambiental, como em geral ocorre com todo o processo educacional, exige a participação dos professores, pois implica tarefa didática e pedagógica. Mas os professores sabem das dificuldades práticas para a efetivação dos dispositivos legais. [...] [...] estar informado sobre esses problemas não é suficiente para que haja uma efetiva participação da população nas questões ambientais. É necessário adquirir consciência sobre a gravidade de tais questões para a vida de cada um e da comunidade como um todo. É necessário, também, que as pessoas sejam motivadas a ter uma participação ativa pela melhor qualidade de vida e proteção do meio ambiente. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 17).
Ademais, as próprias autoras reconhecem também, citando Genebaldo Freire Dias, que
“[...] a realidade ambiental, sendo dinâmica, mutável e socialmente exercitável requer para si um tipo especial de educação, que necessita de vários instrumentos para produzi-la – o Estado é o principal deles”. O autor ainda defende que através da educação formal, [...] como está previsto na legislação que institui a Política Nacional do Meio Ambiente, faz-se necessária uma medida ampla e urgente de sensibilização, não só nos centros urbanos, como também nas áreas periféricas e rurais, colocando o homem no seu verdadeiro lugar, onde ele possa sentir-se força inseparável da natureza, porque é parte de sua estrutura. (CAMARGO e WOLF apud DIAS, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 4).
Sem dúvida, como bem frisam as autoras, “[...] alguns temas como esse podem ser trabalhados de modo interdisciplinar, interagindo com outros conteúdos nas diversas disciplinas (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 16)”. É evidente que a Educação Ambiental e Cidadã não pode ser tratada meramente como uma disciplina, mas sim como parte de um processo de conscientização que deve começar não só na vida dos próprios professores, mas também no seio da comunidade humana, que precisa repensar suas formas de produzir, consumir e viver.

... ainda assim, há gente que sai da zona de conforto, abre o coração e tenta, por meio do exemplo, conscientizar mentes e espíritos em prol da ausa do meio ambiente
É como frisam as autoras, ao comentar as respostas colhidas na escola de n° 1 relativas ao questionamento sobre como eram trabalhadas com os alunos as questões ambientais concernentes ao“[...] aumento dos problemas ambientais relacionados ao modelo capitalista e ao consumismo (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 15):
é necessário que haja um processo que busque despertar a preocupação individual e coletiva para a questão ambiental, garantindo o acesso a informação em linguagem adequada, contribuindo para o desenvolvimento de uma consciência crítica e estimulando o enfrentamento das questões ambientais e sociais. É preciso trabalhar não apenas a mudança cultural, mas também a transformação social, assumindo a crise ambiental como uma questão ética e política. Os professores não foram muito claros sobre como trabalhar a educação ambiental e pôde-se perceber que essa temática é pouco trabalhada na escola.(CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 15).
Ainda assim, na mesma escola de nº 1,
Todos afirmaram a importância de ser ter a Educação Ambiental no Currículo Escolar desde cedo, com o intuito de levar a criança a aprender a preservar os diversos tipos de ambientes em que convive, reciclando lixo, plantando árvores e deixando de arrancá-las, bem como para instigá-la a reaproveitar a água, dentre outras práticas essenciais. [...] Sobre a importância da Educação Ambiental no currículo escolar, os professores a consideram de grande importância, para desenvolver através dela a conscientização dos alunos, para que possam preservar o ambiente. (CAMARGO, WOLF, Revista Eletrônica Lato Sensu, p. 15).
Destarte, dadas as atuais circunstâncias, de urgente necessidade de desenvolvimento de mentes conscientes quanto à premência da preservação ambiental e da cidadania, é imprescindível que as escolas da municipalidade (e, quem sabe, do estado de Minas Gerais) adotem a Educação Ambiental e Cidadã como uma disciplina específica.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
CAMARGO, Rosane; WOLF, Rosângela Abreu do Prado. Revista Eletrônica Lato Sensu – Unicentro (Universidade Estadual do Centro-Oeste): Educação Ambiental e Cidadania no Currículo Escolar – disponível em http://web03.unicentro.br/especializacao/Revista_Pos/P%C3%A1ginas/6%20Edi%C3%A7%C3%A3o/Agrarias/PDF/5-Ed6_CA-Educa.pdf, acesso em 26/12/2011, às 11h.