Por Carolina Brauer
Reportagem originalmente publicada no “Informativo FELC-MG – Fórum Estadual Lixo & Cidadania Minas Gerais/edição 03/2008″, que contou com o apoio do Governo do Estado de Minas Gerais, através da Fundação de Meio Ambiente (Feam) e do convênio Asmare.
Nas origens do surgimento do universo, há cerca de quatorze bilhões de anos, ainda não existia vida. Mas, desde esses tempos remotos, as moléculas primitivas já se reuniam e se combinavam para formar, progressivamente, estruturas estáveis, para dar origem ao que hoje se concebe como vida.
Com os catadores de materiais recicláveis não é diferente, e a sua organização em cooperativas e associações ajuda a dar mais condições de trabalho e dignidade àqueles que vivem da catação. Porém, os catadores não-cooperados, maioria entre a categoria, carecem do apoio que advenha de todas as instâncias sociais para que também possam se organizar em grupos, assim como o fizeram as primeiras moléculas, o homem primitivo e os próprios catadores cooperados, e tenham mais chances de deixar de viver à margem da sociedade. Estima-se que 80% dos catadores não participem de nenhuma organização associativa, o que reforça o não-reconhecimento da figura do catador por parte do Estado e da sociedade.
“Trabalhar organizado é melhor”, diz Maria das Graças Silveira Brito, presidente da Coopemar, cooperativa de catadores de materiais recicláveis que fica às margens do Anel Rodoviário e é responsável por 23% de todo o lixo que é reciclado em Belo Horizonte, segundo Maria. “Com a nossa organização, temos a possibilidade de vender o material por um preço melhor, mas não é só isso. Com a cooperativa, temos mais dignidade”, afirma. Pesquisas com catadores organizados em associações feita pelo Felc-MG ratificam a constatação de Maria, e apontam que cerca 70% dos catadores pesquisados dizem ter melhorado a auto-estima com a catação; aproximadamente 75% responderam que a renda mensal aumentou.
Segundo Maria, hoje, após nove anos de fundação da Coopemar, a cooperativa é a fonte de renda de mais de 40 famílias e congrega, em sua maioria, mulheres. “Começamos com oito famílias, hoje temos 42”, orgulha-se Maria. “Aqui, cada um tem um pró-labore justo, independentemente do que eles estejam fazendo (separação, triagem e enfardamento de sucata)”, afirma. “Por exemplo, na prensa eles recebem cerca de R$ 170,00 por semana, mas isso depende do tempo que a pessoa está na cooperativa e de seu próprio desempenho, porque aqui trabalhamos por produção: quanto mais se produz, mais se ganha. Além disso, aqui, eles também têm café-da-manhã e almoço, todos os dias”.
Organizar sem apoio é difícil, mas não impossível
No entanto, começar uma cooperativa ou associação requer acesso a informações que muitos catadores têm dificuldade em obter, desde sobre o mais básico, como conhecer o passo-a-passo jurídico para essa criação, até o mais complexo, sobre como obter apoios e parcerias, um local e maquinário, como prensas.
“Há uns 60 dias a prefeitura esteve aqui e nos notificou. Eles queriam que a gente parasse, o processo está na justiça. Até aqui, o poder público só nos procurou para nos pisar, mas para organizar que é bom, até então, nada”, relata Antônio Sávio Batista, mais conhecido como “porquinho”, dono do ferro-velho localizado às margens da av. Nossa Senhora do Carmo, quase em frente à entrada do Morro do Papagaio, no bairro Belvedere.
Embora seja o dono do ferro-velho, Antônio também concorda que a organização em associação coletiva seja o melhor caminho. “Eu acho que a associação funciona melhor porque ela fornece credenciais aos catadores, e isso é muito importante, já que o catador anda sujo, mal vestido e mexe com lixo, sendo por causa disso muito discriminado. Numa associação ele vai ter um crachá e um endereço fixo, o que vai colaborar para que os cidadãos do Belvedere ou de outros bairros aí não fiquem desconfiando dos catadores e dos seus carrinhos”, diz. “Sou dono do ferro-velho daqui, mas digo que se pudesse ter uma associação no Belvedere seria melhor, porque teríamos mais apoio. O que nos falta é a instrução para que possamos nos organizar”.
A história da Coopemar mostra que o caminho pode não ser apenas o institucional, que vem de cima para baixo, mas também não exime a sociedade, o terceiro setor e os empresários de se empenharem num esforço coletivo social. “Ninguém veio nos ajudar a formar uma cooperativa. Nós só ficamos conhecidos quando fomos para a rua fazer a coleta seletiva com o nosso próprio caminhão. Somente depois de dois anos que já estávamos funcionando a Associação dos Amigos do Bairro Buritis (AABB) nos procurou, trazendo também a UNI-BH e a ONG Moradia. Só depois tivemos os cursos com instituições como o CREA e a Fiemg”, diz Maria.
Vale relembrar as palavras do professor doutor Boaventura de Sousa Santos, da Universidade de Coimbra, Portugal, publicadas no Informativo Felc-MG de janeiro de 2008: “aprendi que muitas das lutas mais exigentes pela inclusão social exigem formas de organização e mobilização autônomas, já que as agendas dos partidos não contemplam as aspirações dos mais excluídos (…)”.

Nivaldo, que traz no rosto as marcas da dureza da vida, conta apenas consigo mesmo para coletar seus recicláveis
Falta de consenso sobre necessidade de organização pode esconder falta de informação e de apoio
Nivaldo Campos é um catador não-associado. Trabalha como catador há quatro anos, já foi serralheiro, pedreiro e pintor, mas conta que depois que amputou os dedos com uma serra teve de parar, tendo começado na catação por iniciativa própria. Nivaldo diz que nunca pensou em se associar a nenhuma cooperativa ou associação, “porque assim anda mais rápido, e o carrinho é meu mesmo, eu o ganhei”. “Pego meu material no (bairro) Sion, tenho que vasculhar o lixo, pois ninguém separa nada para mim, eu balanço e acho, e não trabalho de luva nem nada. Ganho de R$13 aR$ 15 reais por dia, a renda por mês é difícil de calcular, pois tem dia que ganha mais, tem dia que menos, tem dia que não ganha nada”. No dia da entrevista, a labuta diária de Nivaldo que terminava ali, por volta de 14h30, havia rendido menos de R$ 10 reais.
O irmão do Nivaldo, o Valdecir, há oito meses na catação não-organizada, também não enxerga vantagens em se associar a uma cooperativa. “Se não for um serviço fichado eu prefiro fazer só uns serviços biscates, não quero cumprir metas. Na associação, você tem que trazer dinheiro pra dar para a associação, algo assim, mas a pessoa que não é associada pode ir aos lugares certos e conseguir muita coisa. Eu entro nos prédios certos, converso com os porteiros e consigo os materiais nas garagens, e o depósito do “porquinho” (o Antônio, citado na reportagem) fornece o carrinho. Tem vez que eu ganho R$ 70,00 tem vez que ganho R$ 15,00, e no dia certo da coleta seletiva (feita pela prefeitura) a gente ganha mesmo”, afirma.
Porém, tem catador que diz que não se associa porque não tem acesso às formas de associação. Edson Pereira Moreira trabalha na catação autônoma há mais de 10 anos e conseguiu construir a sua casa com o dinheiro obtido na venda dos recicláveis para ferros-velhos. Ele conta que nunca se cooperou porque sequer sabe onde as associações e cooperativas estão. “Nunca fui associado a nenhuma cooperativa, nem sei onde elas ficam. Dizem que eles têm horário para trabalhar. Eu mexo com ferro-velho há muitos anos”, diz, fornecendo uma pista sobre a falta de conhecimento dos catadores não-organizados do que venham a ser as cooperativas e sobre quais são os direitos e deveres de seus cooperados .
“Não vejo nenhuma vantagem em ser cooperada, pelo menos até então. Ainda não vimos o lucro, pois pagamos o aluguel do galpão, pagamos as outras despesas e não temos ajuda da prefeitura”, afirma a cooperada da Coopemar (a cooperativa do início da reportagem) Lúcia Helena da Silveira, que, impelida pelo desemprego, começou na catação há sete anos, vividos quase integralmente como sócia à cooperativa.
A Coopemar reivindica uma parceria com a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH) para conseguir ampliar o galpão em que a cooperativa funciona. “Hoje, trabalhamos com 45 toneladas de material semanalmente, mas com um galpão ampliado e que possa funcionar em dois turnos poderemos dobrar essa coleta seletiva. Eu acho que é isso que o prefeito quer, é isso que o presidente da República quer”, diz Maria, presidente da Coopemar. A PBH, por meio da SLU, informou que foi já identificado um galpão sobre o qual a Coopemar poderá ter a cessão de uso e que será adequado para as atividades de triagem da cooperativa. Porém, o aluguel do galpão aguarda posicionamento da Secretaria Municipal Adjunta de Orçamento – JUCOF, por se tratar de geração de novas despesas para os cofres públicos.

Porquinho, que é dono de ferro-velho, abriria mão de sua propriedade privada se o poder público transformasse seu negócio em cooperativa socializada.
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