A noite fria, em um 24 de junho, é de São João. Na véspera, havia-se comemorado o Corpus Christi, o que parece, a despeito da tradição cristã ligada ao dia desse “santo festeiro”, ter arrefecido motivações que geram beligerância entre vizinhos, rivais, amantes – brigas de bar, de gangues, de relacionamento –, que muitas vezes contribuem para que as já apinhadas urgências médicas fiquem ainda mais sobrecarregadas.
Isso porque naquela sexta-feira “relativamente tranquila”, até aquela hora, a da novela das nove (diz-me, minutos antes, um televisor ligado em um supermercado instalado ao lado do HC), perfilavam-se na Sala de Acolhimento “apenas 16 pessoas”, nas palavras de uma técnica de enfermagem que, mesmo não se identificando, prontificou-se a falar com a reportagem. “Já tivemos ocasiões em que havia nessa Sala 22 pessoas. Às sextas-feiras a demanda costuma ser muito grande, às vezes hoje foi o Corpus Christi, não sei”, filosofa, com um olho na prancheta, repleta de dados, e outro nos pacientes.
Alguns desses pacientes presentes na Sala de Acolhimento não contavam com monitores que verificam, em tempo real e ao mesmo tempo, a pressão arterial, o batimento cardíaco, a quantidade de oxigênio no sangue. Outros não desfrutavam do acesso a fontes de oxigênio, aquelas que são acopladas à parede, de onde saem mangueiras que levam o oxigênio ao paciente. Por causa disso, precisavam ficar na “bala de oxigênio”, espécie de cilindro de oxigênio que é colocado junto à maca, o que não é o ideal, dizem os profissionais de saúde.

Visita da reportagem ao HMC durou cerca de 15 minutos, tempo suficiente para concluir que a saúde pública está doente
“Aqui é só vermelho”
O local é o Hospital Municipal de Contagem (HMC), uma Unidade de Pronto Atendimento que só atende “vermelho”, ou seja, gente que precisa ser imediatamente atendida na sala de emergência.
“Aqui é urgência e emergência a noite toda, e nós não podemos recusar ninguém, pois quem vem para cá são aqueles que não foram aceitos em outras unidades, por estas não contarem com respiradouro, por não poderem realizar exames de imagem, por não contarem com neurologista. Falta espaço físico para acomodar todo mundo, mas como aqui é urgência e é referência, vem tudo para cá. Aqui não é ‘porta aberta’ como outras UPAs, que atendem também ‘verde’ e ‘amarelo’ (*). Aqui é gente que chega esfaqueada, baleada, vítima de acidente de carro e de ataque cardíaco”, diz um médico da urgência do HMC que, preferindo não se identificar, explica que gostaria ter mais dignidade ao exercer medicina, mas que, em meio à falta generalizada de condições de trabalho no HMC, não consegue sequer repousar quando isso é possível durante os seus plantões, de 12 ou 24 horas de duração. A explicação: a parede da Sala de Repouso dos médicos fica rente ao local onde as ambulâncias são estacionadas, para descarregar os enfermos.
“Eu trabalho à noite, às vezes dá para dormir de duas a três horas, e mesmo assim de forma tensa, porque a ambulância chega é aqui atrás da parede da sala onde ficamos, nos intervalos da jornada de trabalho. Mas isso nem é o mais importante. Nós precisamos é ter dignidade de trabalho, de espaço para trabalhar, de material disponível. Eu quero poder atender melhor as pessoas, por isso é preciso que o HMC disponibilize pelo menos mais monitores”, clama um visivelmente sobrecarregado médico.
O doutor diz que “há poucos monitores funcionando 100% – hoje, só 20%, cinco ou seis monitores disponíveis no HMC funcionam plenamente”. O doutor diz também que já que alguns pacientes não contam com esse monitoramento eletrônico, uma triagem precisa ser feita para definir que paciente será conectado a um monitor, com base na gravidade de cada um. Os menos graves têm os dados colhidos de tempo em tempo manualmente.
Às vezes, conta o médico, é preciso proceder com um revezamento dos monitores entre os pacientes. É que as condições clínicas de quem está “agüentando mais” em um dado momento podem mudar no instante seguinte, explica. “Temos de nos virar para dar conta do recado”, resume.
Respiração mecânica “à mão”
A reportagem apurou que, naquele dia, havia em média somente oito respiradores no HMC. Os respiradores são usados quando o paciente precisa ser “entubado”, ou seja, precisa de ventilação mecânica – um tubo é introduzido em sua traqueia, para reproduzir os movimentos presentes no ato de respirar e bombear oxigênio nos pulmões, que por sua vez, naquele momento, não estão dando conta de funcionar sozinhos. “Nas ocasiões em que todos eles estão sendo utilizados e há mais alguém precisando de respiradouro, usamos o “ambú”, explica técnica de enfermagem. O “ambú” é uma espécie de máscara conectada a um balão de insuflação, que é apertado mecanicamente de forma encadeada, fazendo o oxigênio entrar nos pulmões e reproduzindo o ato de respirar – ou seja, alguém fica lá apertando o “ambú” o tempo que for preciso. A técnica de enfermagem afirma também que “faltam fluxômetros para oxigenoterapia”.
Quanto à disponibilidade de medicamentos, o médico afirma que “o básico da rede SUS está disponível, mas o problema mesmo é falta de material de trabalho e excesso de demanda sem condições de infra-estrutura e de equipamentos para atender toda essa gente. Paciente de urgência que fica em maca no corredor é paciente que precisa ser monitorizado, mas não está sendo”, resume.
Um outro médico fornece mais pistas do quão “peculiar” é a rotina de um médico do HMC: “há situações em que o Hospital está lotado, mas o paciente chega lá, acompanhado de policiais, e nós somos obrigados a atender. Mas quando somos nós que precisamos da presença da polícia, a mesma prontidão em atender ao chamado não é verificada. Outro dia um homem foi baleado lá dentro do Centro de Tratamento Intensivo (CTI), mas a polícia demorou duas horas para chegar. Essa é a nossa rotina”.
“Falta tudo, menos pacientes”
A técnica de enfermagem faz coro com o médico, dizendo que “o salário é pouco, mas a maior dificuldade é a falta de tudo, só não faltam pacientes, é isso que você está vendo aí (aponta para a sala de acolhimento). Com a escala completa, cada técnico de enfermagem fica responsável por dois boxes, os mais graves. No corredor ficam três técnicos. Há um enfermeiro responsável e três clínicos. Aqui é assim: os pacientes entram, a gente sai, porque, de tanta gente, fica difícil até transitar por entre as macas, como você pode perceber”.
De acordo com um dos médicos ouvidos, o HMC tem carência de tudo: “faltam condições de trabalho em todas as clínicas médicas, faltam profissionais, materiais e equipamentos. Há sobrecarga de trabalho para quadros técnicos, como os auxiliares de enfermagem, que trabalham por duas, três pessoas”.
A reportagem é “convidada a se retirar da Sala de Acolhimento e das dependências do hospital”, com a justificativa de que, em se tratando de uma reportagem, era preciso respeitar os trâmites burocráticos para que um pedido formal de autorização para reportagem fosse feito, junto à direção do HMC. A visita do Folha dura pouco, cerca de 15 minutos, talvez mais, talvez menos, tempo suficiente para presenciar, in loco, como o sistema público de saúde vem agonizando. Como cantou em líricos versos o poeta Gonzaguinha, “e a pergunta roda”: por quê?
(*) O Ministério da Saúde determina que o padrão de atendimento deve ser realizado com base no acolhimento com classificação de risco, que prioriza casos que necessitam de intervenção médica de urgência. A classificação de risco do usuário é baseada nas seguintes cores:
- Vermelho, ou seja, emergência (será atendido imediatamente na sala de emergência);
- Amarelo, ou seja, urgência (será atendido com prioridade sobre os pacientes classificados como Verde, no consultório ou leito da sala de observação);
- Verde, ou seja, casos que somente são atendidos após todos os pacientes classificados como Vermelho e Amarelo;
- Azul, ou seja, quadro crônico sem sofrimento agudo ou caso social (deverá ser preferencialmente encaminhado para atendimento em Unidade Básica de Saúde ou atendimento pelo Serviço Social). Se desejar poderá ser atendido após todos os pacientes classificados como Vermelho, Amarelo e Verde.
